16.12.09

akáshicos



Tem coisas que agente lê, ouve, diz e se ouve dizendo
que batem fundo e fazem eco infinito de lembrança.
Longe, longínqua...
Atravessam barreiras de esquecimento
para que nos cheguem vagamente.
Nada disso que ouço e falo me pertence.
Nenhum conhecimento.
Minha fala é repetição, um hábito incutido.
para que não se apague da lembrança o ensinamento.

A tradição oral deu lugar a outros aparelhos que falam e tagarelam.
Mas o excesso faz esvaziar e faz perder.
É o nada do tudo.
O grande vazio que há quando tanto há
que se perde o sentido e o valor.

Há de se perceber que pouco ou nada permanece
por seus suportes perecíveis.
O conhecimento sobrevive entranhado, assimilado,
codificado em energia:
Cores, notas musicais e vibrações ecos de lembranças
genéticas da vida, nas realizações que prosseguem
e em tudo que irradiamos e que prossegue se desdobrando
em outras vidas e seres.

Energia quando pertence é sabedoria.
Pertencer é fazer parte de infinitas conexões.
Pertencer nada tem a ver com posse.

Nada me pertence.
Eu pertenço a tudo.

20.11.09

não-materialidade




É que existe um ponto a partir do qual
a coisa não mais regenera.

E não há lagrima que se derrame
que remende o fio do pulso,
que acerte o ponteiro das horas,
que recolha do chão o leite do jarro.

Não há palavra que se diga doce,
que retire todas as outras cuspidas.

Não há saída
uma vez que a vida se enterra.

Nunca vi coisa pra ser tão certa
quanto essas que me anunciam.
A ferida de terra aberta, pulsa.
A cada sopro, cada batida,
menos vida há que se siga.
Pulsa o alento que não recupera.

Não há espaço pra desperdício.
E como fato,
me rompeu o fio da pulseira.

A ilusão dissolve e desaparece,
e tudo é ilusório e passageiro.

[...]
Agente esquece o quanto é frágil o equilíbrio das coisas.
Como se abre um círculo de luz em volta da vida
que permite e que protege tudo aquilo
que demanda energia para se manifestar,
para que se manifeste em beleza.
Como a proteção do útero à criança que se gera.
E que este milagre da existência simples das coisas
pede de nós somente as preces pela potência oportuna,
porque da gratidão se alimenta e faz luz para dissipar a sombra,
abre espaço perante toda potência de não-ser das coisas que são.
Agente esquece do vazio.
[...]


Abriu uma porta que agora se fecha.

ilusão



Seu pequeno corpo caiu,
fez ruído no asfalto.
E fez-se ouvir mesmo com todos os outros barulhos
de uma avenida movimentada ao fim do dia.

E o sol se punha, fim.
Suas asas se cansaram
de lutar contra o vento das circunstâncias.

É real, foi real.
E o cansaço ao fim do dia
é mais do que real,
se pensarmos na quantidade
de pensamentos semelhantes.

Finda o dia,
e sempre retorna eterno.
À mercê dos sopros outros.
À vontade da roda que gira.

Um pequeno ser como este
não faz estardalhaço ao morrer,
e deixa esta existência
quase sem ser notado.
Passa longe dos jornais
e da atenção simples das pessoas.
Já é tanta disposta nos letreiros.
Quem haveria de prestar ouvidos?

É simples:
Tudo morre,
basta estar vivo.

Uma folha que cai da árvore.
Uma árvore numa floresta.
Uma floresta no mundo
e por sua vez no infinito.
Universo.

Não fosse um olhar desconectado.
Não fosse a grandeza de servir lição
Meus guias, meus mestres, professores...
Eu ouço a voz da Terra.
Especialmente ao fim do dia.
E pelos últimos raios de sol reluzindo,
uma libélula em seu último sopro me disse:

O que morre é a ilusão.

20.10.09

fotossíntese




Eram tão belas
as plantas na tua janela.

E tanto eu lhe disse
necessitavam um vaso maior.

Raízes como asas.

Não pássaros são,
mas ainda assim:
o espaço que expandem
é teu chão, como céu.
E nele cresce o que cultivas.

É como manifesta
e torna visível a vibração entorno
de toda escolha partilhada.

Se uma semente contém potência árvore,
em si essência,
uma sutileza vibra como evidência
de um rumo.

Como faixa de cor código
decodifica e indica:
por aqui é tua estrada
de terra.

A terra é marrom
mas não suja
nem quando gruda
nos pés descalços de caminhar.

Alimento é como terra
Que nutre mas periga excessos e desvios.
Despropósitos descuidam nossos corpos.
Entra terra e sai terra,
terra sobe e terra desce,
forma de solo à montanha.

Muda seu eixo
mas não esquece
(de seus filhos)
A terra não.
A Terra Mãe
fornece.

Impurezas são feitas de intenções malogradas.
A poeira é sutileza da ausência
que assentada negligencia, acumula,
adormece, acostuma e faz adoecer.
Adoecimento é como excesso ou falta.

O que é de ser fluido
Deve ser como devir
Que se e quando cristaliza, adoece e para.
Passa a fazer um nó.

Uma pedra no rio, seixo rolado
vai desgastando redondo
até dissolver.

Sou mais como folha
que se movimenta levada junto com a água.
Mas por hora agarra numa quina de pedra,
balançando sem ainda se soltar.

Que não seja mais
se já não mais se sabe
quem seria e já não é.

Tudo muda.
Até planta muda e poda.
Você não sabe mais onde pisa.

Para erguer em direção a céu
há de fincar mais fundo suas raízes
porque delas bebe o alimento que recebe para nutrir.
Árvores são captadoras e doadoras.
Crescem pra cima somente quando crescem também pra baixo.
A raiz, enraíza.
Equilíbrio.

Pessoas são um pouco como árvores.

barulho



Como Manoel (de Barros)
também sou feita de silêncios.

Os mais fundos são feitos de incômodos.
São silêncios inquietos.

Tem uns que se formam leves no ar, e pairam.
Mas logo estouram em partículas invisíveis,
como bolhas de sabão.
São mais reflexivos e coloridos
e também como as bolhas de sabão
fazem arco-íris dentro na luz do dia.

Esses fazem lembrar sonho à cores
e talvez sejam como silêncios ideais.

Alguns dos silêncios tais
são até bem falantes,
outros transparentes, alguns opacos,
e outros bem feios mesmo.

Existem ainda tantos e outros tantos sem fim.
Lacunas.

E de tudo que não me escapa pela boca,
me sai pela culatra atropelado esbaforido
já sem sutileza alguma
que chega arranha na garganta.
São os silêncios destrutivos.
Muito barulho por nada.

Mas por fim quando altivos,
os silêncios se recolhem de fato
ou transmutam em um silêncio medido de poética.
São os mais admirados e nobres tipos de silêncio.
Os feitos conscientes e por escolha.

...

Somente falo quando acredito que nada mais me escuta.
Mas não são tão férteis as tentativas de estabelecer contato.
A linguagem das palavras pode ser tão vazia quanto o silêncio assumido.

Não é fácil ouvir silêncios alheios
Quanto não é fácil ouvir os silêncios internos

Há um mundo tão maior que este
feito somente de todas as coisas não-ditas.
E é para lá, numa parte bem triste,
que vão todas as idéias não manifestadas.
E toda potencialidade desperdiçada.
Na vastidão da intenção que não conclui nem concretiza.
Todos os livros não escritos e fetos abortados.

A parte mais bela do mundo de silêncios
é feita de intenção direcionada, mentalizada e mantralizada.
Nela habitam consciências e seres mágicos
que se desacreditaram da realidade concreta.
Mas que brilham e se movimentam livremente
nas faixas do som akáshico,
vibração das coisas ditas e não-ditas .
São regidos pela consciência da manifestação.

Campo da Fartura: a gratidão manifesta.

...

...

Gratidão.

...

Para ninguém ouvir grito palavras surdas.
Ausente de mim eu invento:
que as coisas que aproximam, tocam de fato.

E não.

Tudo adormece no silêncio do ser-e-não-pensar-sobre-ser.
Ser simplesmente e enquanto o não-mais ainda não (vem).
Porque noutra hora nada mais há de ser dito mesmo.
E a porta se fecha novamente
num espasmo cósmico abdominal
pulsante que regride, implode...
e desaparece.

Na alma do mundo a morte é um piscar de olhos.

Não há silêncio maior do que o nada do tudo.

15.9.09

inconsciente

E pela janela via a lua refletida
sob o teto do coletivo ao lado.

No trânsito lento dos adormecidos,
na anestesia do cansaço,
findava o dia.

Mais um dia.

Presenciávamos todos, sem saber,
o absurdo do excesso.

Como a vida pode chegar nesse ponto?
É próximo o momento em que nada estará oculto.
E por um breve lapso de instante
cada um enxergará seu interno e o todo.

E o todo será acerto
E toda dor será como riso

Era esse o segredo?

Era isso a vida?
Então, de novo.

3.8.09

atuar

Será?

Devo ser
Devo estar
Devo, não nego
Não digo certeza
conquanto não há

Nenhum lugar
me abraça tal
E anseio voltar

Saudade do que não foi
Nem nunca será
E talvez não seja mesmo

Se faz acreditar
faz bem pra alma
Faz caminhada.

E eu acredito.

Cada camada de pele
posta à mostra
por debaixo
de cada cobertura dura
Atua em descida ao solo
à cada ascensão ao sol.

Atua.

Faça andar tua palavra

Pensar como dizer
Dizer como ser
Ser como pensar

Em cada minúcia
descreve o gesticulado
das mãos no ar.

E faz deste gesto
Como maestro

Acerta e varinha
Como magia manifesta
Na realidade
tal como criação
tal como vida
imediata existindo.