5.10.08

visão outra




Como dilacerante fosse
adentrar ainda mais
visão de outras luas,
um espasmo do corpo
trazendo de volta alma

Um rosto como posto diante de uma porta

Semblante de mulher forte
trajando vermelho,
olhos profundos
traços orientais,
e ligeiro sorriso
no canto dos lábios

Além-imagem, sentidos outros
Como ocultos de longo tempo
As vozes e cores em som tambor espiral
Recorrente, reconhece e passa adiante
É, foi, será
Do vermelho ao violeta

E o despertar bruscamente
Dissipando essa imagem nuvem
Mais invisível que concreta

Espelho ou reflexo
É de saber que existe
Como fosse lar
Um outro invisível
que anseia e assiste
Espera.
E que o novo
nasce do encontro real.

1.10.08

visível

É sempre bom ter cuidado
ao transportar imagens
do sutil ao concreto.

O sentido por trás do visível
Fragrâncias e sutilezas
Desapercebidas,
ou tomadas por não-dito.

E não pude dizer ao certo
Do que estava posto e visível
Para tal, haveria de não haver ressalvas.
É que soltar as rédeas
faz tremer o chão debaixo dos pés

Há palavras que calam etéreas
Pois sequer cabem tão claras
Fumaça de café preto no frio
Pontilhada e transparente
Ondulante
Uma gota que se perde ao oceano
Se entrega e dissolve
Desobstruindo fluxos

É que leveza a ser profunda
Há de ser cheia de vazio
Cheia de espaços não-ditos
Recônditos esconderijos

E palavras não preenchem
Como fumaça densa,
podem turvar ainda mais
o espaço que conecta olhares
Entre.

O que havia de dizer
está posto no silêncio dos olhos.

28.9.08

avenida




Quando vê o que passa,
e que é passante todo visível,
aquieta o peito das coisas que se movem

Ao redor orbitam
corpos alheios e partes
vigas estrutras e bases

As partes vivas
e a morte como parte

Como ponte o ser,
através do qual as coisas passam

Pois somente pelos olhos
o que é ilusão permanece
e segue espelhando o nada...
Em silêncio.

21.9.08

fundo



Enquanto desanuvia o rosto
do cansaço da inconstância,
dos calos que a função impõe
e das marcas esculpidas do tempo
Recolhe a face ao chão
retorna à terra, e então
Te recolhe, te retira do mundo um longo instante.

Esconde os olhos enquanto não brilham
E até que brilhem.
Alguns melhores que outros, dias.
A fim que seja plena a entrega
o salto maior, o quântico saltar
É leveza que disseste à beira.

Mas como brotar brilho em recolher semente?

Eleva tua luz do ponto origem
até o ponto de conexão
Para tal, se veja
E deixa ver tal como é
E aceita.
Entrega e dissolve em água.
Um segundo que seja
E de cada vez
E a cada vez
Amansa e intensifica
Um tanto mais que falta
Enraíza

Até lá,
se ainda for,
te encontro
debaixo daquela pedrinha
escondida no fundo do mar
a algumas braçadas do precipício.
Te levo uma boa dose de propósito.

25.8.08

Ajna




Sempre me senti à vontade o suficiente com os sonhos
O problema era de acordar em diante
Do momento em que abria os olhos, deparava:
Ainda não.
Ainda não.
Ainda não.
Um sentido iminente
Recorrente...
A visão

Meu ponto tem cor lilás
Índigo
Elemento água
Entre os olhos, corpo
Propósito de ser
E consistências outras.
Essa é minha corda pela noite escura

O fato é que cada ser
tem um ponto específico de conexão.

Basta dizer que as pistas foram deixadas por si
Como migalhas de pão:
Tudo que reconhece e reconecta

Toda sensação é feita a lhe apontar o caminho.
Mecanismos simples e reflexos. Dejá-vus
Ninguém pode manter a mão ao fogo enquanto queima.
E a busca é sempre uma sensação de vaga lembrança
De pertencer, estar conectado.
Útero. Único.
Portanto o primeiro passo é lembrar
E manter em mente.
Sim, algo que sempre esteve aí
Mas visto por vários ângulos
Se repete como propósito.

A cada vez, o tempo alonga um pouco mais
Se puder abrir os olhos o sufciente a despertar
reconheça-se no tempo
Recolha o que plantou como pista
Finque seus pés na terra
ou seu olhar no horizonte
e conecte-se o quanto puder e por mais tempo.
Através de seu ponto, deixe estar.
E sobretudo seja no mundo
Se envolva no processo
de trazer luz à consciência,
buscando unidade.
É um retorno.
Exercício de persistência.
Intensifica e se afirma como tal.

10.8.08

aconselho

Deixe a mente de lado e vá de encontro à vida
Que o instante é de saltar, mergulhando no presente.
Quando diz:"Tudo está acontecendo exatamente como deveria"
É dizer de hoje o alinhamento sincrônico de uma nova vibração
O sol nascendo no horizonte trazendo novos encontros reais
Não há o que temer.
Se olhar para trás será capaz de ver o nexo-ponte
Mas confie e olhe para frente. Novos nexos, a jornada é longa.
O caminho de casa é sempre o portal agora.
Não abra os olhos para recordar a pedrinha na mão
Sinta-a, vendo por detrás dos olhos o que é real.
Abra os olhos com os olhos fechados.
Siga por mais tempo, sem interromper
o fluxo de energia meditativa.
Confie outros sentidos, o som do vento,
os pés nas pedras brilhantes
Momento a momento.

3.8.08

Ser É



Ser simples custa tudo
Saber não é sentir
E querer não é ser
Ser e transmutar
Ser isso é ser antena
E tudo que se capta
Há de fazer retornar
Fluxo.

Energia é matéria
Alimento que passa através
Da alma que é feita de olhares
Como olhar a noite
E ver no céu estrelas aos pares
O universo olhando a si mesmo

Percepções são janelas
O corpo é meio e canal
É passagem e fluxo
É mensagem

Corpo e mundo
Um só rio largo a correr
Do céu, à terra e mar
Mensagem é amor
Vida é verbo
Viver e manifestar

O propósito do ser
É ser antena
É ser ponte
Ser enquanto
E quando e onde
For impossível
Vida improvável

Ser e transmutar
Para que janela?
Não é preciso parede
O mundo é meu lar
Eu sou
É.