12.4.09

crua


Te sonhei flutuando noite passada.
Prédio abandonado escuro,
e eu espiava.
E sabe do que mais?
Te via bem de longe,
e você me desapontava.
Uma vez mais.

Nada que ver com essa fraqueza
descabida de outros carnavais.
E já prevista pela repetição
Isso tudo é processo.
Vejo a beleza mais certa no escuro.
Nem me importo mais em dividir!

Acho que é o não querer saber,
porque eu sim quero.

Lhe ofertei uma bandeja recoberta de verde
e toda uma vida do que disponho.
Fiz naquela visão uma escolha,
e tantas vezes até aprender, eu disse sim.
E direi sempre que vier a mim.
Coisa que me é mais difícil.
A não-escolha é uma escolha.
E se assim for, te encontro lá no fundo.
Acabar nunca acaba,
mas não espero nem mais um minuto
porque amanhã nunca chega.

Então vou indo em frente
e se mudar de idéia
aperta o passo.

3.4.09

tempo suspenso na lente vazia

Quanto tempo leva?
...até que o objeto-ser que é posto à luz,
abstraia o olhar que incide sobre si
e mergulhe no seu próprio vazio interno?

fórum

Sublinhar palavras:
Eu acredito sobretudo no abstrato.

Em que
o além das coisas,
além dos olhos,
além visível,
O improvável
distancia lento do que é sólido
no processo de abstração.

A realidade,
limitação física
e perceptiva
nos mantém coesos.

Nossas limitações.
Que o resto é tão amplo
que dissipa, evapora.

Queira desculpar-me a insignificância
Que de tanto querer absurdo e ínfimo
me recolho ao possível
e retorno ao orgânico,
humano e pessoal,
íntimo compartilhado.
Uma proximidade de corpos
convivendo em harmonia.
Vibrando pulsando
Órgão
Organismo
Único.

Acordar com o sol
Dormir com a noite
Carregar apenas
a medida da força de meus braços
Não medir abraços
Que sejam longos
caminhos de terra
Lamber feridas
Reiteirar excessos e desvios
Adoçar palavras debaixo da língua

Três.
Te encontro depois da chuva.

Sim, é possível, eu disse
Oitenta e quatro mil portas
Além das quatro faces
Mundos possíveis
Outros.

24.3.09

da chuva sobre os ombros




Estou chegando, amor
com humildade, Pai Céu.
Estou chegando, Mãe Terra
mais perto do que acredito.

Quando diz bendizer
é a força das coisas ditas.
E quanto mais ditas, mais força
Mais tempo, memórias ancestrais.

Dia desses, as águas me trouxeram de volta
um dizer que fora lançado e esquecido:
Viver a poética, eu disse.

Escolha que é lembrar a força
da propagação do que se diz,
e mais do que se É.

Estou chegando na roda agora, me acolhe?
Povo, todo, parte.
Seres que amo,
e amo a todos os seres
como parte de mim.

Eu fiz a escolha
e sinto nos pés, princípio.
Lição maior tal existência,
Amor.

Não soube amar incontáveis vezes.
Porque o que via
me torturava os olhos,
me ofuscava os sentidos
por vezes, por outras...

Porque meu peito é uma cachoeira
que fiz represar.

Me acolhe irmão, amigo
homem, pai, filho, céu, yang

Também o lado negro
Também o lado luz

Me abraça esta noite
sem que lhe precise pedir.

E perdoa?
Deixa-me chorar ombro,
peito aberto exposto.

Me veja nua, nova,
deixando brilhar amor,
deixando fluir vida.
Tantra, corpo, karma, kama.
Me olha fundo e aceita,
que lhe oferto minha luz criadora
Mãe da energia criativa,
fazendo gerar os sonhos dos homens.

Num abraço cósmico,
roda arco-íris espiral
pulsando tambor
falando baixinho:
"Nós somos um"

Pacha Mama
Madre Tierra
Mãe que acolhe útero,
alimenta o seio da terra
com teu sangue.

Luz clareza de sol pai
que cura das coisas escuras,
das partes ocultas da noite.

Invoco:
Integração
Dois lados do ser.

Mentaliza
Mantraliza:
"Nós somos um"

Afim que seja plena a entrega
à propósito do ser.

Miro aliás, que seja
Lótus, ajna, flor lilás.

do medo que tenho e do tempo que faz

Eu bem lhe queria falar
das chuvas que me recaíram sobre os ombros.
Fazendo sonora a presença sutil,
das palavras que não se fazem ouvir
e das presenças que não se fazem ver.

Mas é que lhe devo invocar
em nome do medo uma última vez,
e que ceda então lugar ao novo.

O que se deseja expresssar mais simples
através do meu corpo, lábios,
existência que se desdobra no caminhar...

A que vim ter entre vós.
Que foi também origem dos desenganos.
Do que sonhei naquela noite ao teu lado,
que me despertou todo medo
e que não soube dizer,
mas que ainda assim me veio perguntar.

Que só ousei dizer uma vez,
mas nunca ao teu ouvido.
E que temi que lhe alcançasse,
que lhe transparecesse,
e que foi todo sentido.

Será que me engano de novo?
Em confundir mensageiro e mensagem?
Se assim for, me perdoe.
Mas devo lhe falar que meu coração bate,
que é vivo e anseia cheio de amor.
Por trás destes muros verdes
de hera cultivada no abandono.

Eu sei que não é o suficiente saber,
mas quantas voltas o mundo há de completar
antes que me possa apresentar a ti e dizer:
Estou pronta.(?)
Por que nesta hora nada haverá de ser dito,
e me perguntarei porque esperei tanto tempo.
Antes nada adianta saber.

Não chego a lugar algum por aqui.
E nada disse, receio.

Teu sentido é como o meu,
exceto pelo medo.
E isso é real.

19.2.09

povo-em-pé




Como fizeram crer pequenina...

- Não engula caroços de fruta,
senão lhe brotam galhos por dentro.

...pensava:

Amanhã eu vou virar uma árvore.

Mudança

Sentamos em roda
e as nuvens escureceram.
A primeira parte: prossiga
Interrupção.
Conflito.

Espera um pouco, choveu.

Quero desaprender este lado meu que fala alto
Saber soprar verdade sem mudar o tom de voz...
Chora por mim, chuva
que é hora de ser forte,
não paro de morrer.

Dessa vez tento medir melhor as datas
Nada sei do que virá,
você pode conviver com isso?

É o fim.
Como no fim daqueles cem anos de solidão:
Cupins comeram meu armário.
No caso eram formigas,
só que formigas não comem armários,
só mordem os pés da gente.
Vorazes, penso que manifestam
tornar visível o tempo que finaliza.

Nada permanece inalterado até que enfim!

Mesmo com a televisão calada
e os móveis espalhados pelo chão.

De onde surgiram estes vinis antigos?
De acúmulos, esquecimentos e frivolidades.

Joga tudo fora, eu voto
Fora é modo de dizer, passa adiante.

E os apegos?
Mais fácil tratar dos que são visíveis
A coleção de Budas?
Paz? Silêncio?

Guarda a esperança nessa pequena caixa, por favor,
escreve FRÁGIL em cima e lacra com fita parda.

Pandora às avessas.