3.5.10

Blackout




Vinha tão baixa
que todas as luzes se apagaram.
A rua dos postes escureceu,
como a lhe fazer passagem.
Ou encobrir-lhe de seus próprios fantasmas

Um pique de luz.

E a rua era sem saída.

Chegou.

Havia sido importante
sair nos últimos raios de sol.
Porque assim pudera ver com clareza o fim.
Que era o fim do dia, de um dia.
Do que um dia fora...
E que havia outros tantos, porvir.

Mas que a noite viria densa, longa e escura
antes do próximo alvorecer.

A luz elétrica anunciava.
Mais uma passagem.

em nome



Se crês na magia e no invisível,
como ousa gritar-me ao pé do ouvido
palavras amargas e cargas ancestrais
de fendas femininas
de chagas e fogueiras
à força bruta?

Em meu nome
e em nome do sangue me correndo às veias
da água escorrendo a montanha,
do vento levando os fonemas,
os sons e ecos lançados.

A palavra proferida não retorna.
Se transmuta em vibração
invisível no mundo ilusão.

E distancia,
não enxerga.

É buraco fundo.
É o fim de tudo.
Tudo já foi dito,
tanto já me dei,
tanto que já disse...

Agora quero estar muda.
E surda e cega aos teus apelos.
Tudo em vão.

Porque me escapa e esvazia.
Leva tudo o que quiser,
mas me deixa.
Me deixa seguir sozinha.

E desvia os olhos do meu caminho

Se não é teu anseio e não faz jus com o meu,
se não acredita e não enxerga,
não mais peça
para se fazer ver pelos meus olhos.
E não me culpe pela imagem escura que cativas.
Me respeita as lacunas e as recaídas.
E se afasta.

Cada investida é uma enxada arrancada de terra
e uma profunda construção abandonada à espera,
do fim.

10.2.10

urgente

Estava aos afazeres menos urgentes
Quando lhe interrompeu um acesso de urgência
Que a fez saltar da cadeira tremendo
Como se lhe escapasse, como vontade alheia, mas por dentro
Era preciso, era preciso e imediato.
Era preciso sair.

Havia se iludido, foi como despertar em um salto
Havia perdido tempo e energia.
Não se sabia e se perdera
Recolheu de uma só vez os pertences espalhados no recinto.
Fechou portas, janelas e apagou as luzes
Imaginou alguém batendo à porta.
Como um espasmo de loucura.
Era a loucura e tinha nome.
Como segundo último de fôlego, desespero
Como mar revolto e afogamento
Como se todas as falhas a perseguissem
Como o temor da consequência do que não sabia ter cometido.
Estranhou, como se lhe rissem às costas
Não compreendia, era maior.
Quis sumir, olhava os dedos e o rosto no vidro
tornavam-se pálidos como se desintegrassem,
sentia que lhe esqueciam, e partiam todos,
era chamado, era despedida.

Nada mais havia que lhe prendesse,
era urgente, era urgente, era urgente…

Quis empacotar todos os livros e pedras, roupas e lençóis
Quis um novo mundo inteiro a percorrer e uma mochila.
Quis inventar um novo nome, um novo rosto.
Quis o vazio por fora, que era por dentro que o sentia.
Quis nascer de novo, pois morria.

Não podia compreender,
era urgente, era urgente, era urgente.

Olhou para trás trancando ali dentro esses rostos
Encerrou, trancou a porta.
Abriu os olhos e todas as luzes estavam apagadas,
nenhum rosto, nenhum sopro
Cruzou o pátio com passos largos.
Podia ouvir seus próprios passos.
Era noite e quando saiu à porta do prédio,
sentiu cheiro de flores.
Respirou. E nada havia que justificasse.

Agora haveria de fazer escolhas.

16.12.09

janela




Da janela dos meus olhos, minha casa
vejo vida, vejo verde.
E que tudo nasce do verde.
Vejo seres e outras vezes,
imagino.

Crio imagens na retina
de presenças que nem sempre estão presentes.
Talvez impressões tenham outra lógica para o tempo.

Só sei que converso
e gosto de ouvir o vento
balançando as árvores
verdes.

akáshicos



Tem coisas que agente lê, ouve, diz e se ouve dizendo
que batem fundo e fazem eco infinito de lembrança.
Longe, longínqua...
Atravessam barreiras de esquecimento
para que nos cheguem vagamente.
Nada disso que ouço e falo me pertence.
Nenhum conhecimento.
Minha fala é repetição, um hábito incutido.
para que não se apague da lembrança o ensinamento.

A tradição oral deu lugar a outros aparelhos que falam e tagarelam.
Mas o excesso faz esvaziar e faz perder.
É o nada do tudo.
O grande vazio que há quando tanto há
que se perde o sentido e o valor.

Há de se perceber que pouco ou nada permanece
por seus suportes perecíveis.
O conhecimento sobrevive entranhado, assimilado,
codificado em energia:
Cores, notas musicais e vibrações ecos de lembranças
genéticas da vida, nas realizações que prosseguem
e em tudo que irradiamos e que prossegue se desdobrando
em outras vidas e seres.

Energia quando pertence é sabedoria.
Pertencer é fazer parte de infinitas conexões.
Pertencer nada tem a ver com posse.

Nada me pertence.
Eu pertenço a tudo.

20.11.09

não-materialidade




É que existe um ponto a partir do qual
a coisa não mais regenera.

E não há lagrima que se derrame
que remende o fio do pulso,
que acerte o ponteiro das horas,
que recolha do chão o leite do jarro.

Não há palavra que se diga doce,
que retire todas as outras cuspidas.

Não há saída
uma vez que a vida se enterra.

Nunca vi coisa pra ser tão certa
quanto essas que me anunciam.
A ferida de terra aberta, pulsa.
A cada sopro, cada batida,
menos vida há que se siga.
Pulsa o alento que não recupera.

Não há espaço pra desperdício.
E como fato,
me rompeu o fio da pulseira.

A ilusão dissolve e desaparece,
e tudo é ilusório e passageiro.

[...]
Agente esquece o quanto é frágil o equilíbrio das coisas.
Como se abre um círculo de luz em volta da vida
que permite e que protege tudo aquilo
que demanda energia para se manifestar,
para que se manifeste em beleza.
Como a proteção do útero à criança que se gera.
E que este milagre da existência simples das coisas
pede de nós somente as preces pela potência oportuna,
porque da gratidão se alimenta e faz luz para dissipar a sombra,
abre espaço perante toda potência de não-ser das coisas que são.
Agente esquece do vazio.
[...]


Abriu uma porta que agora se fecha.

ilusão



Seu pequeno corpo caiu,
fez ruído no asfalto.
E fez-se ouvir mesmo com todos os outros barulhos
de uma avenida movimentada ao fim do dia.

E o sol se punha, fim.
Suas asas se cansaram
de lutar contra o vento das circunstâncias.

É real, foi real.
E o cansaço ao fim do dia
é mais do que real,
se pensarmos na quantidade
de pensamentos semelhantes.

Finda o dia,
e sempre retorna eterno.
À mercê dos sopros outros.
À vontade da roda que gira.

Um pequeno ser como este
não faz estardalhaço ao morrer,
e deixa esta existência
quase sem ser notado.
Passa longe dos jornais
e da atenção simples das pessoas.
Já é tanta disposta nos letreiros.
Quem haveria de prestar ouvidos?

É simples:
Tudo morre,
basta estar vivo.

Uma folha que cai da árvore.
Uma árvore numa floresta.
Uma floresta no mundo
e por sua vez no infinito.
Universo.

Não fosse um olhar desconectado.
Não fosse a grandeza de servir lição
Meus guias, meus mestres, professores...
Eu ouço a voz da Terra.
Especialmente ao fim do dia.
E pelos últimos raios de sol reluzindo,
uma libélula em seu último sopro me disse:

O que morre é a ilusão.